Preferia não fazê-lo, Bartleby

Tempo de leitura: 10 minutos

I would prefer not do

Hoje, falarei de Bartleby, o escrevente, de Herman Melville, que, embora tenha sido lançado por uma editora como novela, considero um conto com uma certa extensão, e somente por isso não foi incluído no livro O conto na sala de aula, escrito por mim e por Jessyca Pacheco, e lançado no final do ano passado pela Editora InterSaberes.

Entre as leituras mais prestigiadas estão as feitas por Deleuze e Agamben. O primeiro desmonta as teses dos filósofos analíticos de Oxford, ao assinalar que a frase I would prefer not do não é nem constativa, nem performativa. Tal frase é como se Bartleby dissesse o indizível e, a cada proferimento, provocasse reações as mais estranhas possíveis, contaminando os outros. Agamben vê na frase de Bartleby a potência do não, que questiona a supremacia da vontade, destruindo a relação entre poder e querer. O que vem a seguir é a minha leitura feita a partir do referencial teórico-metodológico da semiótica de linha francesa, à qual acrescento pitadas da Ética de Spinoza. Como outras tantas, é apenas mais uma leitura possível. Minha sugestão é que quem ainda não leu o conto vá correndo fazê-lo. E não vale como resposta Preferia não fazê-lo.

Mas vamos a um resumo. A história é narrada em primeira pessoa por um advogado que exerce a função de Procurador Geral do Tribunal de Justiça, que se apresenta como um sujeito confiável, prudente e organizado; portanto, desde início, procura constituir um ethos de sujeito confiável, mas sempre é bom lembrar que a narrativa em primeira pessoa tem efeitos de sentido de subjetividade e esse ethos de narrador confiável é apenas um efeito de sentido construído no e pelo discurso. O narrador mantém um escritório em que trabalham três funcionários: Turkey, Nippers e Ginger Nut, ou seja, Peru, Patas de Caranguejo e Bolachas de Gengibre. No final do conto, aparece um personagem chamado Cutlets, ou seja, Costeletas. O procurador contrata um outro funcionário, o jovem Bartleby, para exercer a função de copista. Nos dois primeiros dias, ele executa o trabalho de maneira extraordinária. No terceiro dia, ao receber um pedido do chefe para fazer algo, Bartleby diz com muita calma: I would prefer not do (Preferia não). Ao ser indagado do porquê da resposta, diz simplesmente: Preferia não.

Bartebly passa a ter comportamento estranho, pois não apenas se recusa a fazer seu trabalho, como também não sai para almoçar, alimentando-se apenas de bolachas de gengibre, trazidas por Bolachas de Gengibre. Num domingo, o procurador resolve passar no escritório e toma ciência de que Bartleby está lá. O escrevente não só se recusa a fazer seu trabalho como também faz do escritório sua moradia. Além disso, não bebe cerveja como Turkey, nem chá, nem café. Também não fala, exceto para responder, usando a frase Preferia não.

O procurador resolve ajudar Bartleby e tenta manter com ele um diálogo, mas a todas as perguntas, ouve sempre a mesma resposta: Preferia não. Em determinado momento, o próprio procurador se flagra usando o verbo preferir em suas frases. Bartleby para de fazer qualquer tarefa, tornando-se uma mobília no escritório. Diante dessa situação, o procurador não vê outra saída a não ser demitir Bartleby, que se recusa a aceitar a demissão e abandonar o escritório. Diante da inusitada situação, quem abandona o escritório é o procurador. Os novos ocupantes do prédio dirigem-se ao procurador para reclamar da presença do escrevente, que continua a viver no local. O procurador chega a propor a Bartleby que vá morar com ele, mas a resposta é sempre a mesma: Eu preferia não. Bartleby, por fim, é levado a uma prisão. O procurador vai visitá-lo e propõe a Cutlets (Costeletas) que cuide da alimentação de Bartleby, que se recusa a comer e morre de fome. Há ainda uma narração final do procurador que conta um boato ouvido a respeito de Bartleby. Esse boato consiste em que Bartleby fora funcionário subalterno do Departamento de Cartas Mortas, de onde fora demitido. Esta é, em síntese, a história, que como disse, admite diferentes leituras.

Para estabelecer o sentido de um texto, a semiótica de linha francesa propõe que o sentido decorre de um percurso, que vai de um nível mais profundo e abstrato (nível fundamental) para um nível mais superficial e concreto (nível narrativo). Entre eles, há um nível intermediário, o das estruturas narrativas. No nível fundamental, o conto articula-se na oposição semântica liberdade vs. servidão, em que o valor servidão é negado e o valor liberdade afirmado. Esses valores do nível fundamental se dizem eufóricos (positivos) ou disfóricos (negativos). Em Bartleby, a liberdade é valor eufórico; a servidão é disfórico. Trata-se de um texto euforizante, portanto.

Quanto à estrutura narrativa, temos um sujeito cuja performance seria um dever-fazer (fazer cópias).Esse sujeito tem a competência necessária para realizar essa performance, já que sabe e pode fazer cópias, mas não as faz porque não se deixa modalizar pelo dever. Dessa forma, não sendo modalizado por um sujeito de fazer, o escrevente não se transforma. Na verdade, há uma automodalização pelo querer: Bartleby NÃO QUER fazer cópias. Se não há transformação (mudança de estado), não há, do ponto de vista do escrevente, narração. Toda a narração se desenvolve a partir do ponto de vista do procurador, que estabeleceu com Bartleby um contrato e quer que o escrevente o cumpra, manipulando-o de várias formas, ora por sedução, ora por tentação, ora por intimidação para um dever-fazer.

Detenho-me na relação Procurador/Bartleby. Ela deve ser vista por dois ângulos: uma relação comunicativa (um fazer-saber), em que o procurador é o destinador que comunica algo a Bartleby, o destinatário, e uma relação persuasiva (um fazer-crer e um fazer-fazer), em que o procurador manipula Bartleby para que acredite que deva fazer e faça seu trabalho. Como se vê, o procurador não consegue concretizar nenhuma das tarefas, face à recusa reiterada de Bartleby em aceitar o que lhe propõe o procurador; em outros termos, Bartleby não se deixa modalizar pelo sujeito de fazer, o procurador, não crê que deva fazer, por isso não faz.

Volto à axiologia colocada no nível fundamental: a liberdade, vista como negação da servidão. Liberdade implica não constrangimento, e o homem não é livre porque é constrangido por forças que vêm de fora. E que forças são essas? Para Spinoza, essas forças são as paixões. O homem é um ser apaixonado e, por isso, não é livre, já que é constrangido por forças externas a ele que lhe deixam marcas. Para Spinoza, só há liberdade se não houver constrangimento. Liberdade implica uma relação agonística, vale dizer, uma relação de si para consigo mesmo, que leve o homem ao conhecimento e afaste dele a superstição, a tolice, o medo, o desespero, grandes inimigos da liberdade. Essa teoria espinozista se coaduna bem com o que postula a semiótica das paixões, que propõe que as paixões são modalizações de sujeitos de estado. Um sujeito modalizado é, portanto, um sujeito constrangido por uma categoria modal e, portanto, não livre. Bartleby não aceita modalização alguma, portanto é um sujeito desapaixonado, o que implica dizer, livre. Observe que, enquanto o procurador é modalizado por paixões, Bartleby se mantém impassível. A sintaxe da frase I would prefer not to traduz essa ausência de paixão. Uma frase polida e perfeitamente gramatical, em que a preposição to tem caráter anafórico, retomando conteúdo expresso na frase anterior, normalmente uma frase do procurador. O to é o que amarra Bartleby ao procurador. Alguns tradutores, para marcar o caráter anafórico da frase, têm preferido (ooops!) traduzi-la por Preferia não fazê-lo.

Volto ao esquema narrativo do conto. O que faz Bartleby? Embora tenha a competência (ele sabe e pode fazer cópias), não se deixa modalizar por um sujeito exterior a ele (o procurador), que visa transformar seu estado, tentando modalizá-lo pelo crer e pelo dever. Bartleby tem consciência de que não deve fazer cópias, pois isso é um constrangimento que vem de fora e, portanto, negação de sua liberdade. Então, posso fazer a leitura do texto da seguinte forma: não é que Bartleby não faça nada, não é que ele negue um fazer; pelo contrário, o tempo todo ele faz e reitera uma coisa: a afirmação de sua liberdade? negando uma situação de servidão, Bartleby é a figurativização da liberdade, na medida em que não se deixa constranger por forças externas a ele.

Teria de fazer agora uma análise do nível discursivo, mas como já estiquei demais este comentário, vou fazê-lo em rápidas pinceladas. No nível discursivo, estão presentes figuras que revestem os temas. O encadeamento de figuras formam o que se chama de isotopia. Chamo a atenção para uma delas: escritório, escrivaninha, papel, escrevente, copista, escrever, documento e, principalmente, cópia. Essa isotopia recobre o tema da servidão, do trabalho não criativo, da repetição, da burocracia, que fica clara pela reiteração da frase Preferia não. É esse o trabalho que o procurador propõe a Bartleby.

O escrevente do título não se refere ao escritor, que realiza um trabalho criativo, mas ao copista, aquele que nada cria, pois apenas reproduz o que outrem manda fazer. Para encerrar, volto ao tema da liberdade. O homem só é livre quando não é constrangido por forças que vêm de fora. Isso significa que a liberdade vem de dentro e está ligada à capacidade humana de estabelecer uma relação de si para consigo mesmo, que nos permite afastar os fantasmas que vivem dentro de nós e que são marcas (signos) que nos foram colocados nos encontros de nosso corpo com outros corpos. A liberdade não é a consciência que temos da natureza, porque essa consciência é produto de marcas que nos impuseram, tornando-nos tolos. A liberdade está ligada ao pensamento, capaz de criar novas formas de viver. Eu poderia continuar, mas, parodiando Bartleby, I would prefer not to.

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