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No final do romance Um amor incômodo, da conhecida autora italiana que assina Elena Ferrante, lê-se o seguinte: “Amalia existira. Eu era Amalia”. São duas frases simples, com os verbos no passado, o que é comum em narrativas, pois essas normalmente contam acontecimentos, verdadeiros ou ficcionais, que já ocorreram. O passado da primeira frase (existira) é, no entanto, diferente do da segunda (era). A diferença entre eles, portanto, não reside no tempo; ambos são pretéritos.
Aprendemos na escola que o primeiro (existira) é pretérito mais-que-perfeito e que o segundo (era) é pretérito imperfeito. Aprendemos ainda que há também um outro pretérito, o perfeito (Amalia existiu. Eu fui Amalia). Se perfeito, imperfeito e mais-que-perfeito exprimem fatos pretéritos, em que consiste a diferença entre eles?
Na escola, quando se ensina a classe gramatical do verbo, insiste-se bastante na categoria tempo. Aprendemos que os verbos apresentam três tempos, o presente, o pretérito (ou passado) e o futuro. Pouco se fala, no entanto, sobre a categoria aspecto. O verbo, além de tempo, modo, pessoa, número e voz, também é usado para exprimir aspecto. Mas o que é aspecto?
Dá-se o nome de aspecto ao ponto de vista que se tem do processo verbal, ou seja, se ele é apresentado como concluído ou não; se ele é apresentado em seu início, em sua duração, ou em seu término. Esses são apenas alguns aspectos expressos pelo verbo. Há outros. Entre saltar e saltitar e entre beber e bebericar, há uma diferença aspectual: as segundas formas indicam que a ação se repete.
Entre Gabriela é elegante e Gabriela está elegante, não há diferença no tempo, ambas as frases apresentam verbos no presente. A diferença entre elas reside no aspecto e se manifesta na oposição permanente vs. temporário. Ao usar o verbo ser, quem fala expressa um predicado permanente do sujeito Gabriela. Ao usar o verbo estar, exprime-se um predicado transitório do sujeito. A extensão temporal que esses verbos expressam também é diferente: com o verbo ser, a duração do predicado se estende no tempo, ao passo que com o verbo estar, a extensão temporal é menor.
Embora sejam coisas diferentes, tempo e aspecto se relacionam em muitos casos. É frequente, por exemplo, o aspecto ser manifestado pelo tempo verbal. Em O pássaro saltita e Ele bebericava, o aspecto iterativo, isto é, de repetição, é dado pelos sufixos –itar e –icar, respectivamente. Em outros casos, o aspecto é dado pelo uso de um verbo auxiliar. Em As mercadorias começaram a chegar e As mercadorias acabaram de chegar, os verbos auxiliares começar e acabar exprimem, respectivamente, que a ação é apresentada em seu início e em seu término.
Se quanto ao tempo, o verbo pode exprimir algo que é presente, passado ou futuro, quanto ao aspecto pode expressar diversas coisas. Uma delas é se o processo verbal é manifestado como concluído ou não concluído. O presente e o gerúndio, por exemplo, manifestam algo não em seu andamento, ou seja, como não concluído: eu existo, eu canto, existindo, cantando. O pretérito perfeito, ao contrário, mostra o processo como concluído: eu falei, eu cantei.
A palavra perfeito provém do latim, perfectum, que significa feito inteiro, portanto, acabado. Imperfeito, por sua vez, significa não acabado. A oposição perfeito vs. imperfeito diz respeito, portanto, a se o processo expresso pelo verbo é apresentado como concluído, ou seja, foi levado até o seu final (aspecto perfectivo), ou apresentado como não concluído (aspecto imperfectivo). O perfeito poderia ser representado por um ponto (eu saí, ele leu, você cantou) ao passo que o imperfeito poderia ser representado por uma linha que se prolonga (eu saía, ele lia, você cantava).
O aspecto perfectivo é expresso no passado pelo pretérito perfeito e pelo pretérito mais-que perfeito; o aspecto imperfectivo é expresso pelo pretérito imperfeito. Se tanto o perfeito quanto o mais-que-perfeito exprimem fatos passados vistos como concluídos, em que consiste a diferença entre eles?
A reposta é simples: a diferença está no momento que se toma como referência. O pretérito perfeito tem por momento de referência o momento em que se fala, ou seja, o presente, o agora. Trata-se, portanto, de um passado do presente. O pretérito mais-que-perfeito tem por referência, não o presente, mas um momento passado. Em outras palavras, o pretérito mais-que-perfeito é um passado de outro fato passado.
Quando alguém diz Ontem eu acordei cedo, a forma verbal acordei exprime um fato já concluído que toma como referência o momento em que se fala, o agora, o presente. Trata-se de um passado do presente. Na nomenclatura oficial, um pretérito perfeito. Numa frase como Quando eu acordei, você já saíra, a forma verbal saíra exprime um fato passado em relação a um outro fato passado, acordei, portanto se trata de um passado do passado. Na nomenclatura oficial, um pretérito mais-que-perfeito. Aqui é necessário fazer uma observação. No português falado no Brasil, o pretérito perfeito simples (saíra, chegara) tem sido substituído pela forma composta, tinha saído, tinha chegado.
Feitas essas observações, pode-se voltar às frases que encerram o romance de Elena Ferrante e comentar os efeitos de sentido que produzem as formas verbais escolhidas. Em Amalia existira, a forma verbal é a do pretérito mais-que-perfeito do verbo existir. Em Eu era Amalia, a forma verbal é a do pretérito imperfeito do verbo ser. Entre elas, há a oposição entre algo visto como concluído e algo visto como não concluído. A forma verbal existira, por ter aspecto perfectivo, deveria marcar a fim da história narrada, porém autora faz seguir uma nova frase, agora com o verbo no imperfeito (era), portanto aquilo que chegara ao fim se reabre manifestando o sentido de incompletude do narrado, ou nas palavras da autora em carta que escreveu ao jornalista Goffredo Fofi: “o imperfeito da segunda frase, e a transformação do sujeito da primeira em predicativo, tinha a intenção de reativar a vida de Amalia…”