Linguística e bombas

​Por Ernani Terra©

Meio doente, sem muita força para trabalhar resolvi assistir à série Manhunt: Unabomber na Netflix. Baseada em fatos reais, conta a história de Theodore Kaczynski, o Unabomber. Dotado de um QI elevado, cursou a Universidade de Harvard, onde se formou em Matemática. Personalidade estranha, vivia isolado numa cabana e foi responsável por vários atentados a bomba, que provocaram a morte de três pessoas e ferimentos em muitas outras. As bombas eram enviadas pelo correio e explodiam assim  que o destinatário abrisse a correspondência.

Kaczynski era um ativista e teve seu manifesto publicado inicialmente no The Washington Post e posteriormente em livro. Preso e julgado, foi condenado a prisão perpétua.

Mas o que tem a ver o Unabomber com Linguística? Para começar a entender, sugiro que assistam à série, que é muito boa, e saibam o que é idioleto.

Como devem saber a língua varia em decorrência de vários fatores. Temos a variedade de língua de uma região, de uma época, de uma profissão (o jargão) etc. Mas entre todas as variedades, temos o idioleto, que é o sistema linguístico de um indivíduo, o conjunto de atos de fala de uma determinada pessoa. Isso é muito útil para os estudos de estilo e de relações entre Psicologia e estilo. Os estudos linguísticos mostram que há uma conexão entre língua e personalidade.   É fácil entender isso, quando pensamos em autores literários: há um estilo próprio de Machado de Assis, de Shakespeare, de Guimarães Rosa etc., de sorte que, para um estudioso, é possível identificar que determinado texto foi escrito por Machado de Assis, por exemplo. Mas não precisa ser um autor literário, uma pessoa qualquer tem seu idioleto. Você certamente reconheceria algo escrito pelo colunista da Folha, José Simão, mesmo que o texto não viesse assinado. Claro que alguém pode escrever imitando o idioleto de outro. Veja, a propósito, a Carta às Icamiabas, em Macunaíma, de Mário de Andrade.

Capa da revista Time com reportagem especial sobre Theodore Kaczynski

Como disse, o Unabomber teve seu manifesto publicado no The Washington Post. Esse manifesto serviu de corpus para que o FBI determinasse o idioleto do Unabomber e, num procedimento de perícia, comparasse a linguagem do Manifesto às cartas que o suposto Unabomer escrevera para seus familiares. Comparando ambas as coisas, ficou provado que quem escreveu o manifesto fora a mesma pessoa que escrevera as cartas. Assim, o autor das cartas, Theodore Kaczynski, e o autor do Manifesto, o Unabomber, seriam a mesma pessoa. Revelada a identidade do Unabomber, a sua prisão pôde ser concretizada.

O problema é, como vocês verão se assistirem à série, que havia um desprezo enorme pelas provas conseguidas por meio do que se chama de Linguística Forense, mas foi graças à Linguística que conseguiram a identificação do terrorista e puderam prendê-lo e julgá-lo.