A ovelha negra

Por Ernani Terra ©

O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos…” (Italo Calvino)

Li anteontem, na seção de reclamações de leitores da Folha de S. Paulo,  a carta de um leitor afirmando que não consegue encontrar, na rede de concessionárias de veículos da marca X, um par de lanternas para seu carro que haviam sido furtadas.

Bingo!

Não há lanternas na concessionária, cresce o número de furtos desse acessório, impulsionando um mercado paralelo de fornecimento de lanternas do veículo X. A escassez do produto faz com que o preço dispare nos desmanches que vendem peças roubadas. Como combater esse crime? Simples: basta a montadora cumprir o que determina o Código de Defesa do Consumidor, dispor de peças para substituição a um preço justo.

Mas o que isso tem a ver isso com literatura, um dos assuntos deste blogue? Muito, pois a literatura nos traz o real mesmo que ele não tenha ainda acontecido.

Ao ler a a carta sobre o furto das lanternas, imediatamente  me veio à memória um conto do Italo Calvino chamado A ovelha negra, que está no livro Um general na biblioteca, publicado pela Companhia das Letras. A minha edição é de 2001 (vejam a foto da capa), mas creio que o livro ainda deva estar em catálogo e deve haver uma edição mais recente. Se você não leu esse conto, segue um resuminho.

Trata-se de uma história  narrada por um observador (narração em 3a.pessoa) de um acontecimento passado, que tem por espaço um país onde todos eram ladrões. O parágrafo que abre o conto apresenta uma única frase: “Havia um país onde todos eram ladrões“.

Nesse país, cada morador roubava seu vizinho. Como todos roubavam a todos, o país vivia em paz, pois aquele que tinha sido roubado  compensava a perda roubando o outro. Como se o sujeito que teve as lanternas do carro roubadas, para compensar roubasse as de um segundo, que, por sua vez, roubasse de um terceiro, que, por sua vez, roubasse… Lembra a Quadrilha, do Drummond?

Numa das passagens do conto o narrador:

“E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último que roubava o primeiro. O comércio naquele país só era praticado como trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez só se preocupavam em fraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeços, e não havia ricos nem pobres”.

Sem que se soubesse de onde viera, aparece no país um homem honesto, que, em vez de sair para roubar como todos os outros, ficava em casa, lendo romances e fumando. Os ladrões, vendo as luzes da casa do homem honesto acesas, não entravam para roubar. Era preciso que o homem honesto compreendesse que não roubando, alguma família ficava sem comer. O homem honesto passa então a sair de casa à noite, mas, ao contrário dos outros, não roubava ninguém. Quando retornava, via que sua casa fora roubada. Em menos de uma semana, o homem honesto não tinha mais nada, nem o que comer. Mas essa atitude criou uma grande confusão, porque como ele não roubava ninguém, sempre havia alguém que saía para roubar e que, quando voltava, encontrava a casa intacta. Alguns, por causa disso, acabaram ficando ricos e não queriam mais roubar. Os que iam roubar a casa do homem honesto acabaram ficando pobres, pois não encontravam nada para roubar. Os que ficaram ricos pegaram o costume de à noite ir à ponte ver o rio passar. Os ricos perceberam que indo até a ponte, ficariam pobres e resolveram pegar os pobres para roubar por eles, mas continuavam ladrões porque viviam enganando os outros. Os ricos foram se tornando cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. Os ricos não precisavam mais roubar, mas pagavam aos pobres para roubar para não ficarem pobres e pagavam aos mais pobres dos pobres para se defenderem de outros pobres. Assim, instituíram a polícia e construíram as prisões. Anos depois não se falava em roubar ou não roubar, mas apenas de ricos e pobres, mas todos continuavam a ser pobres. Honesto só tinha havido aquele homem, que morreu logo, de fome.

Uma bela fábula dos tempos modernos em que se roubam até lanternas de carro num país cujo governo é uma associação de delinquentes.

PS.: Antes que algum dono de desmanche resolva me processar, esclareço que na frase “A escassez do produto faz com que o preço dispare nos desmanches que vendem peças roubadas”, a oração “que vendem peças roubadas” é uma adjetiva restritiva, observe que não a separei da anterior por vírgula. Isso quer dizer que ela não se aplica a todos os desmanches, mas apenas e tão somente àqueles que praticam o crime de vender peças roubadas.

Papa Hemingway

Por Ernani Terra  ©

Encontrei ontem meio escondido na Netflix Papa: Hemingway in Cuba, filme recente (2016) do diretor Bob Yari, com Adrian Sparks no papel de Hemingway, e Giovanni Ribisi, no papel do jornalista Ed Mayers.

Papa Hemingway in Cuba, filme de Bob Yari, de 2016.

Baseado em fatos reais, o filme narra três anos de amizade do escritor com o jornalista na Cuba dos anos que antecedem a Revolução que poria fim ao governo de Fulgencio Batista. Papa é o primeiro filme de Hollywood rodado em Cuba depois da Revolução. Só a bela fotografia e a ótima atuação de Sparks já recomendariam o filme. Mas há algo que faz dele um grande filme: Hemingway. Nesses anos que antecedem seu suicídio (o escritor se mataria com um tiro em 1961, um ano após os acontecimentos mostrados no filme), vemos um Hemingway depressivo, abusando do álcool, com problemas conjugais e incapaz de escrever.

Fui apresentado a Hemingway, nos anos 1970, quando Bete, uma colega de escola com quem mantenho contato até hoje, me falou de O velho e o mar. Li o livro (tenho a impressão de que todo mundo começa a ler Hemingway por esse livro) e depois fui ler simplesmente tudo o que ele escreveu. Primeiro, os romances e depois os contos. Como o jornalista Mayers do filme, aprendi muito com Hemingway (o filme mostra uma das qualidades do escritor, a generosidade). Aprendi não apenas em relação aos temas de suas obras e ao mundo de suas personagens, mas também sobre o próprio ato de escrever. Sempre digo às pessoas que leiam os contos de Hemingway para aprender como se escreve um conto, para como fazer com que a história de um conto pareça mais verdadeira do que a realidade. Gabriel García Márquez disse certa vez que Cat in The Rain (Gato na chuva), de Hemingway, era o conto mais bem escrito que conhecia. Mas o que se pode aprender da leitura dos contos de Hemingway? Muita coisa, mas destaco duas fundamentais, ligadas aos efeitos de sentido de realidade que seus contos produzem.

Hemingway nos ensina que um bom texto deve ser um texto enxuto. Concisão é a palavra-chave. Nada de rodeios, não há nenhuma palavra sobrando. Os contos dele parecem ter saído de uma cirurgia em que se eliminou toda a gordura. Não há verborragia. No filme, há a famosa cena em que Hemingway conversa num bar em Cuba com Ed Mayers e pergunta a ele: “Me diga um número de 1 a 10”. O jornalista responde: 6. Hemingway pega uma caneta e, no balcão do bar, escreve num guardanapo: “For sale: baby shoes, never worn.” (Vende-se: sapatinhos de bebê, nunca usados). Entrega o guardanapo a Ed e diz: um conto com seis palavras. Um conto menor que um tuíte, já que tem apenas 28 caracteres. Assistam à cena.

 

A segunda coisa que se aprende com Hemingway sobre como escrever que, de certa forma, relaciona-se à anterior, é relativamente ao foco narrativo. Se há uma história, há alguém que a conta, o narrador, que narra de uma certa perspectiva que determina o que ele vê e, em consequência, o que pode contar. Há basicamente dois focos narrativos: 3a. pessoa e 1a. pessoa. No primeiro caso, o narrador não é personagem da história que narra, é um observador ou testemunha. No segundo, o narrador é também personagem, principal ou secundária, da história.

Hemingway (1899-1961) amava gatos. Para ele, gatos têm honestidade emocional absoluta.

Hemingway, em seus contos, muitas vezes “apaga” o narrador, cuja função passa a ser mínima, usado apenas para indicar quem fala o quê. Chamamos a isso de modo dramático de narrar, na medida em que se assemelha a uma representação teatral, em que tomamos contato com a história diretamente pela boca das personagens.

No conto dramático, o narrador se limita a colocar as personagens em cena e dar voz a elas, que conduzem sozinhas a narrativa como se estivessem em cena em um teatro representando seus papéis diante de um público. Assim, quem ocupa o primeiro plano da narrativa não é o narrador, mas as personagens. Veja, a propósito, o início do conto Cinquenta mil.

— E você como vai, Jack? — perguntei.
— Viu esse Walcott?
— No ginásio.
— Vou precisar de muita sorte com esse garoto — falou Jack.
— Ele não pode com você, Jack — afirmou Soldier.
— Deus queira que não.
— Ele não pode com você nem a chumbo.
— Quem me dera fosse só com chumbo — admitiu Jack.
— Ele parece fácil de acertar — falei.
— Parece — concordou Jack. Ele não vai durar muito. Não vai durar como você e eu, Jerry. Mas, no momento, está com tudo.
— Você despacha ele com a esquerda.
— Pode ser. Pode até ser.
— Trate ele como tratou Kid Lewis.
— Kid Lewis. Aquele judeca — lembrou Jack.

Aristóteles fazia a distinção entre o épico e o dramático. No primeiro, tomamos contato com a história por meio de alguém que a conta, o narrador. No segundo, a história não nos é narrada, mas representada por meio de personagens que estão em cena, como no teatro. No trecho acima, embora uma das personagens exerça também a função de narrador, não há praticamente narração, na medida em que a história vai sendo contada por meio das falas das personagens. Esse recurso confere ao texto um efeito de sentido de realidade, uma vez que a cena vai se desenrolando diante do leitor à medida que ele lê os texto.

Há, evidentemente, muito mais a aprender com Hemingway. Que tal começar agora pela leitura de seus contos?

Um homem célebre sem qualidades

Por Ernani Terra©

O ano que termina foi excepcional para mim: dois livros publicados, dois outros prontos para serem lançados em 2018, três artigos publicados, congressos, viagens, novos amigos. Não posso reclamar que ele termine para mim um pouco melancólico. A melancolia me traz à memória o Pestana, “Ah! o senhor é que é o Pestana?”. Esse Pestana é o Pestana, compositor de polcas, personagem do conto Um homem célebre, de Machado de Assis, que começa exatamente pela frase que reproduzi anteriormente. Se ainda não leram esse conto, corram fazê-lo.

Um dos livros que lancei este ano chama-se O conto na sala de aula. Mas esse conto não está lá. Ainda bem! Não quis tomar para mim a responsabilidade de fazer a seleção dos contos do livro, pois ia acabar me dedurando. Ainda bem que Jessyca Pacheco, que escreveu o livro comigo e selecionou os contos que entraram nele, não escolheu Um homem célebre. Alívio para mim. Mas como um criminoso que não consegue conviver com o crime e precisa confessá-lo para purgar a culpa, senti uma comichão danada de confessar não um crime à moda de Raskolnikov, mas um pecadilho.

O Pestana de Um homem célebre é uma personagem que me encanta. Sinto uma total empatia por ele, por seu sofrimento silencioso, por sua incapacidade de transformar o que sente em música. Não que ele fique abúlico por causa disso, ele produz, e muito, mas algo diferente do que gostaria. Suas obras são muito bem aceitas por  todos. Gostam muito do que ele compõe, tem o reconhecimento público, faz sucesso. Passou a ser um homem célebre. Vejam que a frase que inicia o conto, dita por um interlocutor já apresenta Pestana como alguém famoso.

Mas, como diz o Bruxo em outro conto célebre, temos duas almas: a exterior e a interior. O que as pessoas veem no Pestana é a sua alma exterior. Em O Espelho, a alma exterior eliminou a interior. Em Um homem célebre, isso não ocorre, Pestana sofre com esse reconhecimento da sua alma exterior, pois o que veem nele está longe de representar o que ele é. Sofre muito com isso. “Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como uma fonte perene”. Pestana casa-se com uma viúva de 27 anos e boa cantora, que morre dois anos após. Nem os momentos bons do casamento, nem a tristeza pela morte da esposa fazem com que aquilo que está recôndito se materialize, ganhe expressão.

É uma dor terrível passar a vida sem encontrar uma expressão material que dê forma ao sentido. Sem expressão, o sentido se torna um sem-sentido, uma massa amorfa,  Não achar cores, sons, formas, para mostrar a alma interior e ter a facilidade de encontrar a matéria para expressar algo que não corresponde ao verdadeiro sentido da vida é a tragédia a que está condenado Pestana.

Admiro Pestana porque, ao contrário do que estamos acostumados a ver por aí, ele nunca renunciou à busca da expressão para aquilo que ela julgava que era seu verdadeiro eu. Pestana tem consciência de sua incompletude. Os anti-Pestanas, ao contrário, preferem ficar com a celebridade, tão efêmera quanto a própria vida.

Acho que vou pular de Machado para Musil: o tijolaço de O homem sem qualidades está olhando para mim, dizendo: “Decifra-me ou devoro-te”.

Vale!

PS.: esta crônica, a última de um bom ano, é dedicada à Jessyca Pacheco, a quem agradeço por não ter lembrado desse conto para incluir no livro. Que em 2018 os sentidos verdadeiros encontrem sua materialização em expressões sublimes. Até lá!

 

 

Katherine Mansfield

Por Ernani Terra©

A Folha de S.Paulo está publicando a coleção Mulheres na literatura. São livros em capa dura, vendidos em banca por R$19,90. Os títulos são lançados semanalmente. Não comprei e nem vou comprar todos, porque alguns eu já tenho. Entre as autoras publicadas nessa coleção, temos Clarice Lispector, Virginia Woolf, Emily Brontë, Alice Munro.

Acabei de comprar o volume 19, que traz 15 contos escolhidos de Katherine Mansfield. E são realmente bem escolhidos; pois, abrindo o volume, já nos damos de cara com o antológico conto Êxtase (Bliss).

A influência de Tchekhov perpassa todos os contos do volume. Contista admirada por Virginia Woolf e que influenciou a nossa Clarice Lispector, Mansfield é leitura obrigatória para quem gosta do gênero conto.

Esse volume da coleção Mulheres na Literatura chega em boa hora, pois vai preencher uma lacuna imperdoável. As edições que temos no Brasil da escritora neozelandesa não fazem jus a genialidade de Mansfield.

Fica a dica: se você gosta de contos, corra até a banca mais próxima.

 

Intimidade

Por Ernani Terra©

Este post é sobre um conto que mergulha no universo feminino. Trata-se de um conto erótico que vê duas mulheres na intimidade,  aliás esse é o nome do conto, Intimidade. A autora é uma mulher, evidentemente, Edla Van Steen. O conto faz parte do livro O prazer é todo meu: contos eróticos femininos  e, posteriormente, foi incluído na antologia Os cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Italo Moriconi.

A narração é feita por um narrador que não participa dos acontecimentos cuja função é mais de articular o fio narrativo e dar voz às personagens que mantêm um diálogo no conto. As personagens interlocutoras são duas mulheres casadas, Ema e Bárbara, amigas inseparáveis a ponto de resolverem ter os filhos na mesma época e no mesmo hospital. Os acontecimentos ocorrem na casa da primeira.

Por se tratar de conto erótico, mais sugere do que mostra. As amigas conversam sobre o cotidiano delas, após Ema ter posto os filhos para dormir. Ema admira Bárbara, considera-a mais sábia que ela. Ambas chegaram até pensar em morar numa mesma casa (os maridos também eram amigos inseparáveis). A conversa corre normalmente, quando Ema percebe que o fecho de seu sutiã arrebentou. Bárbara tenta em vão fechá-lo. A conversa muda de rumo. Ema pergunta a Bárbara se seus seios não são grandes demais. Ao que Bárbara responde que os dela são maiores. Resolvem subir para se despirem e medirem os seios. As duas se despem e Ema admira a beleza de Bárbara e reconhece que os seios da amiga são maiores. Ema acaricia Bárbara que sente um arrepio. “Eram tão raros os momentos de intimidade e tão bons”, diz o narrador. Bárbara pergunta a Ema que horas são. Ao ouvir que são 11 horas, avisa que tem de ir embora, pois é tarde. Despedem-se. Ema vai dormir com o sentimento de quem descobre que sabe voar. Por quê?

Sugiro a quem não leu o conto que o leia, de preferência na intimidade. Do ponto de vista da estrutura narrativa, temos duas mulheres que buscam a mesma coisa. Cada uma delas possui o que a outra busca. Esse é o primeiro passo para troca e isso só pode ocorrer no espaço da intimidade, que permite a intensidade das relações entre Ema e Bárbara. A nudez dos corpos e as carícias ganham sentido no espaço da intimidade. Antes, o afeto era apenas potencialidade.  O conto nos faz refletir no percurso daquilo que existe em potência, que se realiza, pela negação de valores para afirmação de outros. A realização daquilo que era apenas potência dá a sensação de que aprendemos a voar.

O post de hoje vai para uma amiga com um beijo de agradecimento por ter me ajudado a perceber que é possível aprender a voar. E eu estou aprendendo, humildemente.

PS: sobre esse conto publiquei no último número da Revista Todas as Letras, o artigo Espacialização e sentido em Intimidade, de Edla Van Steen: uma análise semiótica, escrito em co-autoria com Jessyca Pacheco. Nele, analisamos o conto sob a perspectiva do espaço em que ocorrem os acontecimentos e mostramos que o espaço da intimidade (o quarto) se opõe ao espaço social (a sala). Esses espaços correspondem, respectivamente, às categorias liberdade e opressão. Para quem tiver interesse em ler o artigo, segue o link.

http://http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/tl/article/view/9220/67

Um conto de Natal

Por Ernani Terra©

Está chegando mais um Natal e não há como se lembrar de Um conto de Natal, de Charles Dickens. Quem ainda não leu, aproveite a hora. Mas Natal também lembra uma comida típica dessa época; o peru. Resolvi juntar as duas coisas e, em vez de falar de Dickens, falarei um pouco de um conto de

Capa da minha edição de Contos Novos, que está comigo desde 1977.

Mário de Andrade: O peru de Natal, que está no livro Contos novos. Gosto  tanto desse conto que não pude deixar de incluí-lo no meu último livro, O conto na sala de aula, escrito em parceria com Jessyca Pacheco e publicado pela Editora InterSaberes. No livro, comentamos alguns aspectos do conto. Aqui, quero falar dele sob outro aspecto. Vamos então ao conto de Mário de Andrade.

Natal é época de festas, mas não para todos. Aconteceu comigo no Natal do ano passado: minha mãe morrera alguns meses antes e aquele seria o meu primeiro natal sem ela. Pois é essa a situação narrada no conto: o primeiro natal em família após a morte do sisudo pai. O narrador resolve quebrar o clima de luto, ao propor que no Natal se coma peru. Isso causa certa indignação, principalmente, na mãe, por considerar que comer peru no Natal seria quebra do luto, já que peru é prato de festa. Mas o narrador vence, e faz-se o peru e come-se o peru. O clima é de luta entre dois mortos: o pai e o peru. O narrador toma partido do segundo e começa a ceia de Natal, que… O conto tem um caráter euforizante, na medida em que nas oposições /vida vs. morte/ e /presente vs. passado/, /alegria vs. tristeza/, o que ele celebra é a vida, o presente e a alegria. Lirismo, humor são notas marcantes do conto, que me ajuda muito a passar os natais, sem a presença de minha mãe, que está comemorando seus natais em outra dimensão.

Com peru ou sem peru, desejo um Feliz Natal a todos.