A questão da ortografia em português

6 minutos Em Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles, a personagem Virgínia, num determinado momento, diz: “A gente fala familha mas escreve família. Havia ainda uma porção de palavras assim”. Tomo emprestada essa fala de Virgínia, porque ela sintetiza o problema da escrita ortográfica, que a sabedoria da menina resumiu com propriedade: a gente não escreve como fala. Os textos comportam dois planos: um conteúdo e uma expressão de ordem material (uma linguagem qualquer). No caso dos textos verbais, o plano da expressão dos Leia mais

Campos lexicais

3 minutos As palavras guardam entre si associações. Uma palavra do léxico costuma evocar outras porque há entre elas algo comum. A palavra computador evoca, por exemplo, internet, planilha, vírus, software, notebook, mouse, link, teclado etc. A palavra escola evoca professor, aluno, livro, prova, exame, nota, aprovação, carteira, lousa, formatura etc. Para chamar alguém de tolo, o falante pode escolher, entre tantas outras, as palavras estulto, néscio, inepto, boçal, abestalhado, atoleimado, tacanho, bronco, bocó, babaca, parvo, palerma, obtuso, papalvo, pateta, sandeu, cavalgadura, ignorante, beócio… Leia mais

A carteirinha da doutora

3 minutos Em português, o sufixo –inho não é usado apenas para indicar diminuição como em sapatinho, menininho, telinha, podendo assumir outros sentidos e valores: folhinha (calendário), quentinha (marmita), flanelinha (guardador de carros), caixinha (gorjeta), amorzinho (valor afetivo) etc.   Há ainda o uso do sufixo –inho com valor depreciativo ou irônico: gentinha, engraçadinho, doutorzinho, povinho, santinha, jeitinho (na expressão “dar um jeitinho”), professorzinho (já ouvi gente acentuar o valor pejorativo, acrescentando o adjunto “de merda”). O valor pejorativo costuma ser dado pelo contexto, Leia mais

Compaixão

2 minutos No post, reproduzo passagem de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera (1929 – 2003), publicado pela Companhia das Letras, em tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, em que o escritor tcheco trata da compaixão. “Todas as línguas derivadas do latim formam a palavra ‘compaixão’ com o prefixo ‘com’- e a raiz ‘passio’, que originariamente significa “sofrimento”. Em outras línguas, por exemplo em tcheco, em polonês, em alemão, em sueco, essa palavra se traduz por um substantivo formado com um Leia mais

Xenofobia e os gregos

1 minuto Na palavra xenofobia, há dois elementos gregos: xeno (= estrangeiro) e fobia (= aversão). Detenho-me no elemento xeno (ksénos, em grego) relacionado à palavra grega xênia (ksenía), que significa ‘hóspede’ e também ‘anfitrião’. Xênia designa ainda ‘presente que os antigos gregos davam aos hóspedes após as refeições’. Como explicar essa aparente contradição, em que, em grego, a xênia tanto podia designar aquele que vem de fora, o hóspede, como aquele que recebe, o anfitrião? Simples: porque aquele a quem hospedamos hoje poderá Leia mais