Língua, literatura e preconceito

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Por Ernani Terra ©

Monteiro Lobato já foi a bola da vez. Sua obra foi acusada de racista e quiseram proibi-la de ser entregue aos nossos estudantes. Houve um tempo, em que se insurgiram contra o pó de pirlimpimpim, porque era uma manifestação de drogas alucinógenas (nem só quem toma LSD, viaja!).

O que me chama a atenção é por que escolheram Lobato para ser malhado e não só no sábado de Aleluia, se manifestações de preconceito  podem ser encontradas em outros autores nacionais. Ah! houve um promotor que pediu censura ao verbete cigano do Houaiss, sob a acusação de manifestar preconceito. As palavras não são as coisas: a palavra cachorro não tem quatro patas, não late, nem morde.

O Houaiss ainda  mantém as acepções pejorativas de cigano, indicando-as por uma abreviação (pej.)  e acrescenta uma observação de que elas “resultam de antiga tradição europeia, pejorativa e xenófoba por basear-se em ideias errôneas e preconcebidas deste povo que, no passado, levava uma existência nômade“.

Para continuar a argumentação, gostaria que o leitor me fizesse o favor de ler o trecho que transcrevo, extraído de uma obra importante de nossa literatura. Mas antes esclareço, já que estamos caminhando por mares revoltos, que usei o leitor e não ou o (a) leitor (a) porque, como mostrei no post Queridxs amigxs, para o qual remeto, o masculino é a forma não marcada. Segue o texto.

“Com os emigrados de Portugal veio também para o Brasil a praga dos ciganos. Gente ociosa e de poucos escrúpulos, ganharam eles aqui reputação bem merecida dos mais refinados velhacos: ninguém que tivesse juízo se metia com eles em negócio, porque tinha certeza de levar carolo. A poesia de seus costumes e de suas crenças, de que muito se fala, deixaram-na da outra banda do oceano; para cá só trouxeram maus hábitos, esperteza e velhacaria […]”

Segundo o texto, ciganos são: “Gente ociosa e de poucos escrúpulos”; “refinados velhacos”; “para cá só trouxeram maus hábitos, espertezas e velhacarias”; “viviam em completa ociosidade”. Preconceituoso? Sem dúvida alguma, na medida em que denigre (Ops!) a imagem dos ciganos.

Saibam que os estudantes que prestaram vestibular para duas das principais universidades brasileiras, USP e Unicamp, em 2016, foram obrigados a ler o trecho acima, já que faz parte da obra Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, que constava como leitura obrigatória do vestibular organizado pela Fuvest.

Achei a escolha da Fuvest ótima, pois se trata de um livro essencial de nossa literatura e todos deveriam ler, pois o livro é um excelente retrato do Rio de Janeiro da época de Dom João VI e a corte permaneceram no Brasil (1808-1821), visto a partir das camadas populares. Pode-se dizer que Memórias de um sargento de milícias é um livro revolucionário para época em que surgiu e que pode (e deve) ser lido nos dias de hoje com o maior interesse. Essa passagem em que o autor fala dos ciganos, se bem conduzida pelo professor, gera um debate riquíssimo.

Mesmo não sendo exigido em vestibulares, essa obra é apresentada a nossos estudantes, particularmente aos de Ensino Médio, comentada por professores, constando ainda dos livros didáticos distribuídos pelo MEC, que faz uma avaliação deles e exclui aqueles em que haja manifestação de qualquer tipo de preconceito.

Agiu bem a Fuvest e colocar esse livro na lista dos obrigatórios para o vestibular. Agem bem os professores que trazem essa obra para suas aulas e a comentam com seus alunos. Nos dias de hoje, em que lutamos para combater qualquer tipo de preconceito, a leitura desse episódio do livro é estimulante e pedagógica.

O discurso é marcado pela heterogeneidade. Um discurso que combate o preconceito dialoga com um discurso preconceituoso ao qual refuta. Não é escondendo o discurso refutado, jogando-o para debaixo do tapete, que vamos acabar com o preconceito. Não é tirando do dicionário palavras como estupro e pedofilia que vamos erradicar esses crimes.

 

 

2 Comentários


  1. Entender história através da literatura é entender a origem de qualquer formação preconceituosa que existe em nossa sociedade. Anular a leitura é anular a aprendizagem! Adorei a reflexão!

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