Gato na chuva, um conto de Ernest Hemingway

Tempo de leitura: 2 minutos

Lendo um conto de Maupassant em que tudo gira na perspectiva olhar feminino de uma mulher casada, fiquei com o tema da monotonia do casamento sob a perspectiva da mulher na cabeça e me veio à cabeça outro conto (aliás, ele não me sai da cabeça desde que o li pela primeira vez há anos). Trata-se Gato na chuva, de Ernest Hemingway.

Já estou esperando pedradas, acusações de que eu sou fixado nesse conto. Confesso que me foi doloroso não incluí-lo no  livro que publiquei em parceria com Jessyca Pacheco, O conto na sala de aula, e publicado pela Editora InterSaberes. Fazer o quê? É uma obra-prima, a ponto de Gabriel García Márquez considerá-lo o conto mais bem escrito que já leu.

Ernest Hemingway Gato na chuva
Hemingway (1899-1961) adorava gatos

Mas chega de conversa e vamos ao gato. A história se passa num hotel, num balneário italiano em dia de chuva. No hotel, está hospedado apenas um casal de americanos. A mulher olha pela janela e vê um gato na chuva. Fica com dó do bichinho e desce para pegá-lo. Lá embaixo passa pela portaria do pequeno hotel e o funcionário estranha a saída dela debaixo dum enorme temporal para pegar o gato. Mas ela não vê nem sinal do gato na praça deserta onde há um monumento de guerra. Volta ao hotel, passa pela portaria e entra no quarto. O marido continua lendo. Ela reclama e insiste com o marido que quer o gato. Batem à porta do quarto, ela vai atender. É o funcionário do hotel que lhe diz: o patrão mandou entregar e dá a ela um gato feito de casco de tartaruga.

À indiferença e passividade do marido, contrapõe-se a inquietação e vivacidade da mulher. O marido é o retrato puro da monotonia da relação. O gato é o que provoca a ruptura e a busca da mulher por outra vida. Mas será que ela viu da janela um gato na chuva? Estou propenso a acreditar que não. Ela desce e não encontra gato algum. Ninguém, além dela, viu o gato. A janela por onde ela olha e vê o gato mais me parece uma janela por onde se olha para dentro e não para fora e, lá fora, não há gato, mas um monumento de guerra.

1 comentário


  1. Brilhante!!! Genial!! Eu pensando que era apenas um ensejo por atenção do dono do hotel, uma atenção que o marido negava. Mas a janela para dentro dela, que desejava uma nova vida, ( o gato representando isso) aaah essa eu não tinha ainda pensado nisto… . Ainda estou engatinhando em como compreender e interpretar textos assim, ainda mais deste escritor. O senhor é realmente brilhante! E pensar que pulei este conto e fui para “O meu velho”. Acabei de ler. E se fez luz após reler sua análise. Simplesmente brilhante! Obrigada!!

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