Em busca do espaço perdido

Tempo de leitura: 4 minutos

Por Ernani Terra ©

 

Há alguns anos tenho centrado minhas reflexões e pesquisas na categoria espaço, mais especificamente, como o espaço se manifesta nas narrativas.  Tenho colocado como hipótese de que a memória está no espaço e não no tempo.

Acabei de ler um dos contos mais belos de nossa literatura que mostra isso com muita poesia.  Trata-se de Viagem aos seios de Duília, de Aníbal Machado, do livro A morte da porta-estandarte, Tati, a garota e outras histórias (Editora José Olympio). 

O conto narra a história de José Maria, um funcionário público, que depois de 36 anos de serviço, aposenta-se. Vivendo agora “um domingão sem fim”, José Maria se pergunta: “Que fazer agora?”. Descobre que pela primeira vez percebia realmente a paisagem do Rio de Janeiro, o Pão de Açúcar, o Corcovado, as praias… e começa a ligar “os diferentes aspectos da natureza a acontecimentos que a deformavam”. Os anos de repartição lhe colocaram uma máscara fria, sob a qual escondia-se de si mesmo. Perdera o dom de viver? Ainda é tempo de recomeçar? Estava livre. Mas livre para quê? 

Começa a andar pela cidade, a tomar chope, café; muda o traje para uma roupa mais esportiva, deixa de usar o chapéu; entra como sócio de um clube. Estava livre, mas sentia-se só: não tinha amigos, não tinha mulher, nem amante. Vai dormir e sonha com o passado: a cidadezinha de onde viera no sertão de Minas e onde, com dezesseis anos, viu os seios de Duília, uma garota que, num dia de procissão, escondida atrás de uma árvore, mostra a José Maria seus seios brancos.

Duília desapareceu no tempo. Sozinho, sem ter o que fazer, José Maria passa as horas olhando a paisagem através da janela e começa a perceber a natureza e isso o faz voltar à adolescência: Duília! Revê-se na sua cidade natal, aos dezesseis anos, e lembra-se do acontecimento de sua vida: a presença corporal da moça a lhe mostrar os seios. O olhar e a paisagem começam a ter um caráter alucinatório: as colinas são para José Maria como os seios de Duília.

Sem poder viver o presente, percebe que não tinha futuro algum. Só lhe resta desentranhar o passado. Esse passado o chama e José Maria começa a se sentir livre de fato. É nesse passado que se encontrava o que de mais excitante tivera na vida. Nem tudo, pois, estava perdido. Sabia agora o que fazer: buscar o passado. E lá se vai José Maria a fazer o caminho inverso de quando deixara o sertão mineiro e viera para o Rio. Partiu de volta para uma longa viagem ao passado. Para em Belo Horizonte, de lá toma uma jardineira para Curvelo, para em seguida ir para sua cidadezinha, Pouso Triste. Depois, caminhando no lombo de um burro, como quando tinha 16 anos, José Maria já se sente penetrando no passado e no núcleo do seu sonho: a absurda pureza e a gratuidade de Duília ao mostrar ao tímido rapazinho os seios alvos enquanto passava a procissão. Um acontecimento: durou segundos, mas foi o alumbramento. José Maria continuava, com medo, sua caminhada para o futuro e chorou de tristeza. Tinha medo de chegar. Por fim, alcançou a árvore sob a qual Duília mostrara seus seios, mas não encontrou o mesmo sabor, a árvore lhe parecia indiferente. Numa pensão, pediu notícias de Duília. Informaram-lhe que Dona Dudu era viúva e tinha uma porção de netos, mas não morava mais lá, mas mais adiante no Monjolo, um arraial ainda menor que Pouso Triste, no fundo triste do Brasil. José Maria prossegue a sua busca do passado. No Monjolo, dirige-se à escola Municipal. Uma senhora de uns sessenta anos o recebe… 

Evidentemente, não vou contar o final do conto. Quem quiser saber deverá lê-lo e, com certeza, vai depois me agradecer por ter sugerido a leitura de um dos contos mais sublimes de nossa literatura. 

O que escrevi está muito longe de mostrar o que o conto nos diz. Uma viagem ao passado, uma busca de um tempo perdido que dura 7 dias (um número mágico, na medida em que foi o tempo bíblico da criação do mundo). O conto nos mostra que as nossas lembranças são espaciais e não temporais. O que guardamos na memória são espaços. Resgatar o tempo perdido e reencontrar os espaços que deixamos.  

 

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