Um conto de Natal

Por Ernani Terra©

Está chegando mais um Natal e não há como se lembrar de Um conto de Natal, de Charles Dickens. Quem ainda não leu, aproveite a hora. Mas Natal também lembra uma comida típica dessa época; o peru. Resolvi juntar as duas coisas e, em vez de falar de Dickens, falarei um pouco de um conto de

Capa da minha edição de Contos Novos, que está comigo desde 1977.

Mário de Andrade: O peru de Natal, que está no livro Contos novos. Gosto  tanto desse conto que não pude deixar de incluí-lo no meu último livro, O conto na sala de aula, escrito em parceria com Jessyca Pacheco e publicado pela Editora InterSaberes. No livro, comentamos alguns aspectos do conto. Aqui, quero falar dele sob outro aspecto. Vamos então ao conto de Mário de Andrade.

Natal é época de festas, mas não para todos. Aconteceu comigo no Natal do ano passado: minha mãe morrera alguns meses antes e aquele seria o meu primeiro natal sem ela. Pois é essa a situação narrada no conto: o primeiro natal em família após a morte do sisudo pai. O narrador resolve quebrar o clima de luto, ao propor que no Natal se coma peru. Isso causa certa indignação, principalmente, na mãe, por considerar que comer peru no Natal seria quebra do luto, já que peru é prato de festa. Mas o narrador vence, e faz-se o peru e come-se o peru. O clima é de luta entre dois mortos: o pai e o peru. O narrador toma partido do segundo e começa a ceia de Natal, que… O conto tem um caráter euforizante, na medida em que nas oposições /vida vs. morte/ e /presente vs. passado/, /alegria vs. tristeza/, o que ele celebra é a vida, o presente e a alegria. Lirismo, humor são notas marcantes do conto, que me ajuda muito a passar os natais, sem a presença de minha mãe, que está comemorando seus natais em outra dimensão.

Com peru ou sem peru, desejo um Feliz Natal a todos.