A pianista

Por Ernani Terra ©

 

Capa do livro de Elfride Jelinek, prêmio Nobel de literatura em 2004.

A pianista, de Elfriede Jelinek (Editora Tordesilhas, 2011, 333 p.) narra a história de Erika Kohut, uma professora de piano de 36 anos que vive com a mãe opressora num pequeno apartamento em Viena. Trata-se de uma personagem muito complexa. É extremamente autoritária com seus alunos, adepta do voyerismo, fica observando casais fazendo sexo nos parques de Viena, frequenta estabelecimentos eróticos, em que um público predominantemente masculino paga para observar mulheres nuas, pratica a autoflagelação cortando os lábios vaginais com lâmina de barbear. Essa é a vida de Erika, restrita à convivência com a mãe opressora e às aulas no conservatório, onde exerce seu autoritarismo. Seus dramas pessoais e suas frustrações vão ser descarregadas a partir do momento que começa a ter uma relação com um de seus alunos, Walter Klemmer, 10 anos mais jovem que ela.

Erika é masoquista e exige de Walter agressões físicas violentíssimas, a que o rapaz, num primeiro momento, se nega a fazer. A professora de piano passa a exercer um poder autoritário sobre Walter, obrigando-o a fazer apenas o que ela quer, inclusive a ter controle sobre o próprio prazer de Walter, que não aceita ser dominado por ela. A relação entre os dois e a busca do prazer sexual vão sendo marcadas pela violência física.

Erotismo, masoquismo, frustração, dominação, submissão, violência são temas recorrentes na obra e tratados com maestria por Jelinek, numa linguagem em que as falas das personagens se misturam o tempo todo com as do narrador implícito.

Embora seja um romance de personagem, como se depreende pelo título, o leitor é levado a conhecer uma Viena que se esconde atrás do glamour dos cafés e dos teatros. Uma Viena das classes baixas, de imigrantes turcos e sérvios, de relações sexuais feitas sob árvores dos parques sujos da cidade.

A pianista é um romance profundo, que exige do leitor que não fique na superficialidade, lendo-o apenas sob o viés do erotismo. É preciso seja lido tendo em mente a corrente dos discursos com os quais dialoga e refuta. Vale dizer: o erotismo é apenas a porta de entrada para um mergulho no discurso da autoridade, da dominação, do sofrimento, da solidão. Ver Erika como uma mulher que busca apenas o prazer por meio do erotismo é uma leitura rasa e empobrecedora. O romance de Jelinek é muito mais que isso.

Em tempo: o livro de Jelinek foi levado às telas em 2001 num filme excelente dirigido por seu compatriota Michael Haneke, com Isabelle Huppert no papel de Erika Kohut. No Brasil, o filme recebeu o título de A professora de piano. Assista ao trailer.