Papa Hemingway

Por Ernani Terra  ©

Encontrei ontem meio escondido na Netflix Papa: Hemingway in Cuba, filme recente (2016) do diretor Bob Yari, com Adrian Sparks no papel de Hemingway, e Giovanni Ribisi, no papel do jornalista Ed Mayers.

Papa Hemingway in Cuba, filme de Bob Yari, de 2016.

Baseado em fatos reais, o filme narra três anos de amizade do escritor com o jornalista na Cuba dos anos que antecedem a Revolução que poria fim ao governo de Fulgencio Batista. Papa é o primeiro filme de Hollywood rodado em Cuba depois da Revolução. Só a bela fotografia e a ótima atuação de Sparks já recomendariam o filme. Mas há algo que faz dele um grande filme: Hemingway. Nesses anos que antecedem seu suicídio (o escritor se mataria com um tiro em 1961, um ano após os acontecimentos mostrados no filme), vemos um Hemingway depressivo, abusando do álcool, com problemas conjugais e incapaz de escrever.

Fui apresentado a Hemingway, nos anos 1970, quando Bete, uma colega de escola com quem mantenho contato até hoje, me falou de O velho e o mar. Li o livro (tenho a impressão de que todo mundo começa a ler Hemingway por esse livro) e depois fui ler simplesmente tudo o que ele escreveu. Primeiro, os romances e depois os contos. Como o jornalista Mayers do filme, aprendi muito com Hemingway (o filme mostra uma das qualidades do escritor, a generosidade). Aprendi não apenas em relação aos temas de suas obras e ao mundo de suas personagens, mas também sobre o próprio ato de escrever. Sempre digo às pessoas que leiam os contos de Hemingway para aprender como se escreve um conto, para como fazer com que a história de um conto pareça mais verdadeira do que a realidade. Gabriel García Márquez disse certa vez que Cat in The Rain (Gato na chuva), de Hemingway, era o conto mais bem escrito que conhecia. Mas o que se pode aprender da leitura dos contos de Hemingway? Muita coisa, mas destaco duas fundamentais, ligadas aos efeitos de sentido de realidade que seus contos produzem.

Hemingway nos ensina que um bom texto deve ser um texto enxuto. Concisão é a palavra-chave. Nada de rodeios, não há nenhuma palavra sobrando. Os contos dele parecem ter saído de uma cirurgia em que se eliminou toda a gordura. Não há verborragia. No filme, há a famosa cena em que Hemingway conversa num bar em Cuba com Ed Mayers e pergunta a ele: “Me diga um número de 1 a 10”. O jornalista responde: 6. Hemingway pega uma caneta e, no balcão do bar, escreve num guardanapo: “For sale: baby shoes, never worn.” (Vende-se: sapatinhos de bebê, nunca usados). Entrega o guardanapo a Ed e diz: um conto com seis palavras. Um conto menor que um tuíte, já que tem apenas 28 caracteres. Assistam à cena.

 

A segunda coisa que se aprende com Hemingway sobre como escrever que, de certa forma, relaciona-se à anterior, é relativamente ao foco narrativo. Se há uma história, há alguém que a conta, o narrador, que narra de uma certa perspectiva que determina o que ele vê e, em consequência, o que pode contar. Há basicamente dois focos narrativos: 3a. pessoa e 1a. pessoa. No primeiro caso, o narrador não é personagem da história que narra, é um observador ou testemunha. No segundo, o narrador é também personagem, principal ou secundária, da história.

Hemingway (1899-1961) amava gatos. Para ele, gatos têm honestidade emocional absoluta.

Hemingway, em seus contos, muitas vezes “apaga” o narrador, cuja função passa a ser mínima, usado apenas para indicar quem fala o quê. Chamamos a isso de modo dramático de narrar, na medida em que se assemelha a uma representação teatral, em que tomamos contato com a história diretamente pela boca das personagens.

No conto dramático, o narrador se limita a colocar as personagens em cena e dar voz a elas, que conduzem sozinhas a narrativa como se estivessem em cena em um teatro representando seus papéis diante de um público. Assim, quem ocupa o primeiro plano da narrativa não é o narrador, mas as personagens. Veja, a propósito, o início do conto Cinquenta mil.

— E você como vai, Jack? — perguntei.
— Viu esse Walcott?
— No ginásio.
— Vou precisar de muita sorte com esse garoto — falou Jack.
— Ele não pode com você, Jack — afirmou Soldier.
— Deus queira que não.
— Ele não pode com você nem a chumbo.
— Quem me dera fosse só com chumbo — admitiu Jack.
— Ele parece fácil de acertar — falei.
— Parece — concordou Jack. Ele não vai durar muito. Não vai durar como você e eu, Jerry. Mas, no momento, está com tudo.
— Você despacha ele com a esquerda.
— Pode ser. Pode até ser.
— Trate ele como tratou Kid Lewis.
— Kid Lewis. Aquele judeca — lembrou Jack.

Aristóteles fazia a distinção entre o épico e o dramático. No primeiro, tomamos contato com a história por meio de alguém que a conta, o narrador. No segundo, a história não nos é narrada, mas representada por meio de personagens que estão em cena, como no teatro. No trecho acima, embora uma das personagens exerça também a função de narrador, não há praticamente narração, na medida em que a história vai sendo contada por meio das falas das personagens. Esse recurso confere ao texto um efeito de sentido de realidade, uma vez que a cena vai se desenrolando diante do leitor à medida que ele lê os texto.

Há, evidentemente, muito mais a aprender com Hemingway. Que tal começar agora pela leitura de seus contos?

Sylvia Plath

Depois de muito tempo fora de catálogo, chega às livrarias a 2a. edição de Os diários de Sylvia Plath, num volume de 824 páginas, publicado pela Editora Biblioteca Azul, com tradução de Celso Nogueira.

Acesse pelo link http://folha.com/no1947038 entrevista que Karen V. Kukil, curadora das coleções especiais de Smith College, concedeu ao jornal Folha de São Paulo.

 

Um homem célebre sem qualidades

Por Ernani Terra©

O ano que termina foi excepcional para mim: dois livros publicados, dois outros prontos para serem lançados em 2018, três artigos publicados, congressos, viagens, novos amigos. Não posso reclamar que ele termine para mim um pouco melancólico. A melancolia me traz à memória o Pestana, “Ah! o senhor é que é o Pestana?”. Esse Pestana é o Pestana, compositor de polcas, personagem do conto Um homem célebre, de Machado de Assis, que começa exatamente pela frase que reproduzi anteriormente. Se ainda não leram esse conto, corram fazê-lo.

Um dos livros que lancei este ano chama-se O conto na sala de aula. Mas esse conto não está lá. Ainda bem! Não quis tomar para mim a responsabilidade de fazer a seleção dos contos do livro, pois ia acabar me dedurando. Ainda bem que Jessyca Pacheco, que escreveu o livro comigo e selecionou os contos que entraram nele, não escolheu Um homem célebre. Alívio para mim. Mas como um criminoso que não consegue conviver com o crime e precisa confessá-lo para purgar a culpa, senti uma comichão danada de confessar não um crime à moda de Raskolnikov, mas um pecadilho.

O Pestana de Um homem célebre é uma personagem que me encanta. Sinto uma total empatia por ele, por seu sofrimento silencioso, por sua incapacidade de transformar o que sente em música. Não que ele fique abúlico por causa disso, ele produz, e muito, mas algo diferente do que gostaria. Suas obras são muito bem aceitas por  todos. Gostam muito do que ele compõe, tem o reconhecimento público, faz sucesso. Passou a ser um homem célebre. Vejam que a frase que inicia o conto, dita por um interlocutor já apresenta Pestana como alguém famoso.

Mas, como diz o Bruxo em outro conto célebre, temos duas almas: a exterior e a interior. O que as pessoas veem no Pestana é a sua alma exterior. Em O Espelho, a alma exterior eliminou a interior. Em Um homem célebre, isso não ocorre, Pestana sofre com esse reconhecimento da sua alma exterior, pois o que veem nele está longe de representar o que ele é. Sofre muito com isso. “Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como uma fonte perene”. Pestana casa-se com uma viúva de 27 anos e boa cantora, que morre dois anos após. Nem os momentos bons do casamento, nem a tristeza pela morte da esposa fazem com que aquilo que está recôndito se materialize, ganhe expressão.

É uma dor terrível passar a vida sem encontrar uma expressão material que dê forma ao sentido. Sem expressão, o sentido se torna um sem-sentido, uma massa amorfa,  Não achar cores, sons, formas, para mostrar a alma interior e ter a facilidade de encontrar a matéria para expressar algo que não corresponde ao verdadeiro sentido da vida é a tragédia a que está condenado Pestana.

Admiro Pestana porque, ao contrário do que estamos acostumados a ver por aí, ele nunca renunciou à busca da expressão para aquilo que ela julgava que era seu verdadeiro eu. Pestana tem consciência de sua incompletude. Os anti-Pestanas, ao contrário, preferem ficar com a celebridade, tão efêmera quanto a própria vida.

Acho que vou pular de Machado para Musil: o tijolaço de O homem sem qualidades está olhando para mim, dizendo: “Decifra-me ou devoro-te”.

Vale!

PS.: esta crônica, a última de um bom ano, é dedicada à Jessyca Pacheco, a quem agradeço por não ter lembrado desse conto para incluir no livro. Que em 2018 os sentidos verdadeiros encontrem sua materialização em expressões sublimes. Até lá!

 

 

Retrospectiva 2017

Fim de ano, época de balanços e inventários, de listas com os melhores e piores do ano. Este blogue tem apenas sete dias, portanto não há como escolher a crônica mais curtida. Recorro então à minha página do Facebook e descubro que meu texto mais curtido em 2017 foi uma crônica publicada em 27 de março. Para aqueles que já a leram no Facebook, fica valendo como Retrospectiva 2017. Para os que ainda não leram, segue a crônica.

A rainha das conjunções

Por Ernani Terra©

Tive um fim de semana triste. Melancólico, comecei a sentir saudade do que deixei de ser: um professor que não ensinou algumas coisas que, com o passar dos anos, vim a aprender. Coisas simples, como as conjunções, aquelas palavrinhas que usamos para relacionar orações: porque, quando, se, ou, logo, caso, enquanto, embora, etc. e que nos permite organizar o discurso.

Hoje, descobri que, como as abelhas, as conjunções têm uma rainha: a concessiva, que paira soberana sobre todas as outras, que não são poucas. Para quem não lembra, a principal conjunção concessiva é embora.
A aditiva soma; a alternativa, ao contrário, separa, disjunge, exclui, segrega. A conclusiva é muito lógica, racional, cartesiana: penso, logo existo. A temporal serve para marcar essa coisa fugidia que chamamos tempo. Aí me vem Santo Agostinho, que nas suas Confissões pergunta: “Que é o tempo?”. Se o bispo de Hipona não soube responder, não será esse professorzinho besta que o fará. A condicional é terrível: autoritária, por excelência. Impõe.

Alguém já deve estar pensando: Se você continuar a ser essa besta convencida, vou parar de ler. A conjunção final é pragmática demais: coloca sempre um objetivo, uma finalidade. Ela dá adeus à liberdade, ao arbítrio. E a causal? Sempre está enxergando um motivo para tudo. É, como a explicativa e a conclusiva, da ordem do racional. Mais ainda: está sempre a ver entre dois fatos uma implicação e não consegue se divorciar da consecutiva com a qual vive em simbiose, não abrindo espaço para o inesperado. É a conjunção da rotina e da ausência de paixão. E a comparativa? Parece que sofre de transtorno bipolar. Sempre olhando para os outros. Ora eufórica se julgando melhor que as outras, ora se subestimando. É por natureza maníaco-depressiva. A proporcional é o máximo da dependência. É de um rigor matemático. Quando algo se altera, lá vai ela e se altera também. Vive em eterno contubérnio. As conjunções, como se vê, são racionais ao extremo, nos obrigam. Não nos deixam espaço para a subversão.

Devia ter explicado a meus alunos que há uma conjunção que nos dá a oportunidade de fugir a esse pensamento lógico-racional, uma conjunção que nos permite a trapaça: a concessiva. Ela é de outra ordem, da ordem da tolerância, da convivência com o diferente, do respeito ao outro, ainda que esse outro não pense como nós, ou não goste de nós e nos descarte como matéria que não se presta nem mesmo para ser reciclada. É a conjunção do respeito, da aceitação, da tolerância. Concessão é admitir uma ideia contrária, transigir, consentir. No ato de conceder, há a entrega, o dar-se, o dom, a dádiva, na medida em que você cede parte de você a outrem. É a conjunção do desprendimento, do respeito. Ela tem algo de budista, pois manifesta o desapego. É também da ordem do perdão. Não é egoísta. Sendo altruísta, é a conjunção do amor pleno. A concessiva é nobre porque releva a ofensa: Embora você tenha me ofendido, eu continuo gostando de você.

Para amplificar minha tristeza, hoje percebo que não falei nada disso nas minhas aulas, simplesmente porque não sabia isso naquele momento, o que confirma que sempre fui um professorzinho besta. Demorei para aprender, mas a vida me ensinou a ser mais concessivo depois de levar muita porrada.

Aos meus queridos alunos e ex-alunos, muitos dos quais são meus amigos aqui, desculpem-me pela extemporaneidade da aula.

PS.: Este texto é dedicado às pessoas que me ensinaram a ser mais concessivo, minhas verdadeiras mestras. São tantas que fica impossível declinar os nomes. Deixo a todas um beijo concessivo e o meu muito obrigado in perpetuum et unum diem.
Vale!

Linguística e bombas

​Por Ernani Terra©

Meio doente, sem muita força para trabalhar resolvi assistir à série Manhunt: Unabomber na Netflix. Baseada em fatos reais, conta a história de Theodore Kaczynski, o Unabomber. Dotado de um QI elevado, cursou a Universidade de Harvard, onde se formou em Matemática. Personalidade estranha, vivia isolado numa cabana e foi responsável por vários atentados a bomba, que provocaram a morte de três pessoas e ferimentos em muitas outras. As bombas eram enviadas pelo correio e explodiam assim  que o destinatário abrisse a correspondência.

Kaczynski era um ativista e teve seu manifesto publicado inicialmente no The Washington Post e posteriormente em livro. Preso e julgado, foi condenado a prisão perpétua.

Mas o que tem a ver o Unabomber com Linguística? Para começar a entender, sugiro que assistam à série, que é muito boa, e saibam o que é idioleto.

Como devem saber a língua varia em decorrência de vários fatores. Temos a variedade de língua de uma região, de uma época, de uma profissão (o jargão) etc. Mas entre todas as variedades, temos o idioleto, que é o sistema linguístico de um indivíduo, o conjunto de atos de fala de uma determinada pessoa. Isso é muito útil para os estudos de estilo e de relações entre Psicologia e estilo. Os estudos linguísticos mostram que há uma conexão entre língua e personalidade.   É fácil entender isso, quando pensamos em autores literários: há um estilo próprio de Machado de Assis, de Shakespeare, de Guimarães Rosa etc., de sorte que, para um estudioso, é possível identificar que determinado texto foi escrito por Machado de Assis, por exemplo. Mas não precisa ser um autor literário, uma pessoa qualquer tem seu idioleto. Você certamente reconheceria algo escrito pelo colunista da Folha, José Simão, mesmo que o texto não viesse assinado. Claro que alguém pode escrever imitando o idioleto de outro. Veja, a propósito, a Carta às Icamiabas, em Macunaíma, de Mário de Andrade.

Capa da revista Time com reportagem especial sobre Theodore Kaczynski

Como disse, o Unabomber teve seu manifesto publicado no The Washington Post. Esse manifesto serviu de corpus para que o FBI determinasse o idioleto do Unabomber e, num procedimento de perícia, comparasse a linguagem do Manifesto às cartas que o suposto Unabomer escrevera para seus familiares. Comparando ambas as coisas, ficou provado que quem escreveu o manifesto fora a mesma pessoa que escrevera as cartas. Assim, o autor das cartas, Theodore Kaczynski, e o autor do Manifesto, o Unabomber, seriam a mesma pessoa. Revelada a identidade do Unabomber, a sua prisão pôde ser concretizada.

O problema é, como vocês verão se assistirem à série, que havia um desprezo enorme pelas provas conseguidas por meio do que se chama de Linguística Forense, mas foi graças à Linguística que conseguiram a identificação do terrorista e puderam prendê-lo e julgá-lo.

Estrangeirismos

Por Ernani Terra©

Neste Natal, recebi pelo WhatsApp, por e-mail, pelo Messenger e também por posts no Facebook, mensagens de feliz Natal, muitas delas contendo GIFs, emojis e emoticons. Grande parte delas, em vez de desejar feliz Natal, apresentava a mensagem Mary Christmas. Isso me levou a escrever este post no meu blog, que eu prefiro grafar blogue.

Lembrei-me do deputado Aldo Rebelo, que queria banir por decreto os estrangeirismos do português: uma cruzada digna de um exército de Brancaleone, sobretudo porque, passado o Natal, as lojas e boutiques dos Shoppings Centers, vão aparecer repletas de cartazes anunciando SALE e 50%OFF.

O projeto do deputado caiu no esquecimento, mas ressurgem com veemência protestos anti-estrangeirismos sob o argumento de que eles conspurcam o nosso idioma, a última flor do Lácio, inculta e bela.

O que as pessoas devem ter em mente é que toda língua se transforma no tempo e no espaço. As línguas não são homogêneas, pelo contrário, são marcadas pela diversidade. O português, por exemplo, não é um só. Ele comporta um feixe de variedades.Uma das formas pelas quais as línguas se transformam é pelo contato com outras línguas. Importamos, na forma original, ou aportuguesada, palavras de outros idiomas. São os chamados estrangeirismos. Houve época em que era chic entre nós importar palavras do francês, considerada língua de cultura. Isso justifica a presença de palavras largamente usadas como menu, garçom, toalete, gafe, cachecol, champanha, avenida… Hoje, a maioria das palavras estrangeiras em nosso idioma provêm do inglês, uma espécie de língua universal. Mas como bem salientou a professora Ieda Maria Alves, do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, não importamos palavras estrangeiras, mas cultura estrangeira. Quando importamos dos ingleses o jogo chamado futebol, junto com ele veio toda a terminologia. Não importamos as palavras gol e pênalti, importamos o jogo. As palavras vieram juntas. Vejam esta notícia de um jornal paulista de 1922.

CORINTHIANS 2 a 1. 20 de fevereiro de 1922. Ontem, o bravo team do Corinthians Paulista derrotou pelo score de 2 a 1 o do Palestra Itália, no ground deste último. Goals do forward Neco (2) e do full-back Baggio. No ponto do bonds, após o match, um torcedor do Palestra, inconformado, apunhalou um corinthiano.

Com tempo, algumas foram deixadas de lado, substituídas ou aportuguesadas: team virou time, score virou placar, ground virou campo, forward virou atacante, full-back virou zagueiro, bonds, virou bonde (se é que ainda existem bondes),  match virou partida. Sem falar de outras palavras que não aparecem na notícia como offside, que virou impedimento, e corner, que virou escanteio.

A professora Ieda cita exemplos bastante atuais: black friday, delivery e halloween. O que nós importamos dos americanos foi a cultura de “promoções” que anunciam descontos enormes, o sistema de entregar coisas em domicílio, a comemoração do dia das bruxas. As palavras simplesmente acompanharam as importações.

Será que na língua inglesa há estrangeirismos de origem portuguesa? Pode até ser que haja um ou outro. Por que não há uma profusão de estrangeirismos de origem portuguesa no inglês? Simplesmente porque, ao contrário de nós, eles não importam nossa cultura.

Isso tudo quer dizer que não terá efeito algum qualquer lei ou decreto que proíba o uso de palavras estrangeiras entre nós enquanto formos importadores de cultura. Se você está preocupado em defender sua língua, defenda sua cultura. No campo da ciência e tecnologia, as coisas são mais difíceis. Estamos condenados a usar downlood, spam, mouse, link, online, software por causa da dependência tecnológica. Mas como vivemos cada vez mais num mundo globalizado, é impossível não ter contato com outras culturas, a menos que você queira dar uma de Robinson Crusoé e isolar-se numa ilha. Que tal ser um pouco antropofágico como Oswald de Andrade? Engula o que vem de fora, misture com o que é autenticamente nosso e devolva como algo novo. A Bossa Nova fez isso e ganhou os Estados Unidos.

Essa cruzada anti-estrangeirismos tem longa data. No século XIX, o latinista Castro Lopes propunha que substituíssemos a palavra estrangeira football por ludopédio. Houve também quem propusesse trocar o estrangeirismo de origem francesa chofer por cinesíforo. Football acabou ficando, com a adaptação ortográfica, futebol, e cinesíforo não vingou (ainda bem!). A palavra chofer acabou encontrando um excelente substituto em motorista.

Ciao! ou, se preferirem, Tchau!

 

Katherine Mansfield

Por Ernani Terra©

A Folha de S.Paulo está publicando a coleção Mulheres na literatura. São livros em capa dura, vendidos em banca por R$19,90. Os títulos são lançados semanalmente. Não comprei e nem vou comprar todos, porque alguns eu já tenho. Entre as autoras publicadas nessa coleção, temos Clarice Lispector, Virginia Woolf, Emily Brontë, Alice Munro.

Acabei de comprar o volume 19, que traz 15 contos escolhidos de Katherine Mansfield. E são realmente bem escolhidos; pois, abrindo o volume, já nos damos de cara com o antológico conto Êxtase (Bliss).

A influência de Tchekhov perpassa todos os contos do volume. Contista admirada por Virginia Woolf e que influenciou a nossa Clarice Lispector, Mansfield é leitura obrigatória para quem gosta do gênero conto.

Esse volume da coleção Mulheres na Literatura chega em boa hora, pois vai preencher uma lacuna imperdoável. As edições que temos no Brasil da escritora neozelandesa não fazem jus a genialidade de Mansfield.

Fica a dica: se você gosta de contos, corra até a banca mais próxima.

 

Intimidade

Por Ernani Terra©

Este post é sobre um conto que mergulha no universo feminino. Trata-se de um conto erótico que vê duas mulheres na intimidade,  aliás esse é o nome do conto, Intimidade. A autora é uma mulher, evidentemente, Edla Van Steen. O conto faz parte do livro O prazer é todo meu: contos eróticos femininos  e, posteriormente, foi incluído na antologia Os cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Italo Moriconi.

A narração é feita por um narrador que não participa dos acontecimentos cuja função é mais de articular o fio narrativo e dar voz às personagens que mantêm um diálogo no conto. As personagens interlocutoras são duas mulheres casadas, Ema e Bárbara, amigas inseparáveis a ponto de resolverem ter os filhos na mesma época e no mesmo hospital. Os acontecimentos ocorrem na casa da primeira.

Por se tratar de conto erótico, mais sugere do que mostra. As amigas conversam sobre o cotidiano delas, após Ema ter posto os filhos para dormir. Ema admira Bárbara, considera-a mais sábia que ela. Ambas chegaram até pensar em morar numa mesma casa (os maridos também eram amigos inseparáveis). A conversa corre normalmente, quando Ema percebe que o fecho de seu sutiã arrebentou. Bárbara tenta em vão fechá-lo. A conversa muda de rumo. Ema pergunta a Bárbara se seus seios não são grandes demais. Ao que Bárbara responde que os dela são maiores. Resolvem subir para se despirem e medirem os seios. As duas se despem e Ema admira a beleza de Bárbara e reconhece que os seios da amiga são maiores. Ema acaricia Bárbara que sente um arrepio. “Eram tão raros os momentos de intimidade e tão bons”, diz o narrador. Bárbara pergunta a Ema que horas são. Ao ouvir que são 11 horas, avisa que tem de ir embora, pois é tarde. Despedem-se. Ema vai dormir com o sentimento de quem descobre que sabe voar. Por quê?

Sugiro a quem não leu o conto que o leia, de preferência na intimidade. Do ponto de vista da estrutura narrativa, temos duas mulheres que buscam a mesma coisa. Cada uma delas possui o que a outra busca. Esse é o primeiro passo para troca e isso só pode ocorrer no espaço da intimidade, que permite a intensidade das relações entre Ema e Bárbara. A nudez dos corpos e as carícias ganham sentido no espaço da intimidade. Antes, o afeto era apenas potencialidade.  O conto nos faz refletir no percurso daquilo que existe em potência, que se realiza, pela negação de valores para afirmação de outros. A realização daquilo que era apenas potência dá a sensação de que aprendemos a voar.

O post de hoje vai para uma amiga com um beijo de agradecimento por ter me ajudado a perceber que é possível aprender a voar. E eu estou aprendendo, humildemente.

PS: sobre esse conto publiquei no último número da Revista Todas as Letras, o artigo Espacialização e sentido em Intimidade, de Edla Van Steen: uma análise semiótica, escrito em co-autoria com Jessyca Pacheco. Nele, analisamos o conto sob a perspectiva do espaço em que ocorrem os acontecimentos e mostramos que o espaço da intimidade (o quarto) se opõe ao espaço social (a sala). Esses espaços correspondem, respectivamente, às categorias liberdade e opressão. Para quem tiver interesse em ler o artigo, segue o link.

http://http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/tl/article/view/9220/67

Um conto de Natal

Por Ernani Terra©

Está chegando mais um Natal e não há como se lembrar de Um conto de Natal, de Charles Dickens. Quem ainda não leu, aproveite a hora. Mas Natal também lembra uma comida típica dessa época; o peru. Resolvi juntar as duas coisas e, em vez de falar de Dickens, falarei um pouco de um conto de

Capa da minha edição de Contos Novos, que está comigo desde 1977.

Mário de Andrade: O peru de Natal, que está no livro Contos novos. Gosto  tanto desse conto que não pude deixar de incluí-lo no meu último livro, O conto na sala de aula, escrito em parceria com Jessyca Pacheco e publicado pela Editora InterSaberes. No livro, comentamos alguns aspectos do conto. Aqui, quero falar dele sob outro aspecto. Vamos então ao conto de Mário de Andrade.

Natal é época de festas, mas não para todos. Aconteceu comigo no Natal do ano passado: minha mãe morrera alguns meses antes e aquele seria o meu primeiro natal sem ela. Pois é essa a situação narrada no conto: o primeiro natal em família após a morte do sisudo pai. O narrador resolve quebrar o clima de luto, ao propor que no Natal se coma peru. Isso causa certa indignação, principalmente, na mãe, por considerar que comer peru no Natal seria quebra do luto, já que peru é prato de festa. Mas o narrador vence, e faz-se o peru e come-se o peru. O clima é de luta entre dois mortos: o pai e o peru. O narrador toma partido do segundo e começa a ceia de Natal, que… O conto tem um caráter euforizante, na medida em que nas oposições /vida vs. morte/ e /presente vs. passado/, /alegria vs. tristeza/, o que ele celebra é a vida, o presente e a alegria. Lirismo, humor são notas marcantes do conto, que me ajuda muito a passar os natais, sem a presença de minha mãe, que está comemorando seus natais em outra dimensão.

Com peru ou sem peru, desejo um Feliz Natal a todos.